Sufixos do Patriarcado
- Anapuena Havena
- há 1 dia
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Por Leôncio de Aguiar

Vivemos em um planeta multicultural. Tão multicultural que todas as suas terras são divididas em Estados soberanos e territórios a estes subordinados (até mesmo a Antártida está fracionada entre diversas soberanias reivindicantes, mormente as que assinaram o Tratado da Antártida). Assim, cada nação ou comunidade subordinada tem sua própria cultura, consistente em idiomas, religiões, etnias e correntes políticas. O único costume que parece homogêneo, em todo o globo, é a genealogia por patriarcalismo.
Com isso, quero dizer que a identificação da ascendência por meio de sobrenomes, nos casos em que ocorre, se dá pela aproximação sonora do filho ou filha com um pai, imediato ou distante, relegando às mães uma secundária posição genealógica. E não podemos nós, do Ocidente geográfico, dizer que somente países ainda teocráticos exercem dito costume, pois só passamos a abandonar a condição de teocracias a partir de 1789, com a Revolução Francesa (ou seja, um decorrido período que, ainda, é historicamente curto).
Como exemplos mais próximos, lhes digo que, em português, são vários casos a ilustrar. O sufixo "es" significa "filho ou filha de", denotando, pela leitura do restante identificado, a conclusão de que sempre foi um homem a ser, inicialmente, homenageado nos primórdios do uso genealógico, com apelidos como "Rodrigues" ("filho ou filha de Rodrigo"), "Fernandes" ("filho ou filha de Fernando"), "Álvares" ("filho ou filha de Álvaro"), e outros.
Na língua espanhola, o sufixo é "ez": "Rodríguez", "Fernandez" ou "Alvarez" (que denotam os mesmos e homenageados ascendentes, expressos em português) e demais, como "Martínez" (filho ou filha de Martin") e "Hernández" ("filho ou filha de Hernán").
O fenômeno não se restringe, apenas, a essas duas principais línguas latinas. Entre os escandinavos parece ser, também, a regra dominante. Vejamos a língua dinamarquesa: no reino como um todo, são muito comuns os sobrenomes "Christensen" ("filho ou filha de Cristian"), Johannsen ou Johánsen ("filho ou filha" de Johann ou Johán) e "Leonhardsen" ("filho ou filha de Leonard"). No idioma norueguês, muito parecido ao dinamarquês, o fenômeno permanece (com pouquíssimas diferenças, sendo a principal o fato de o sufixo ser "son" (e não "sen").
Por fim, um caso que chama bastante à atenção é o da língua russa. Lá, em geral os homens carregam, no primeiro sobrenome, o sufixo "itch" para denotar o ascendente masculino imediato, e não um distante, como "Bóris Nikolaievicth" ("Bóris, filho de Nikolai"), sendo, logo após, sucedido por um sobrenome neutro (como "Bóris Nikolaievich Iéltsin"). Já as mulheres utilizam um sufixo diferente ("ovna" ou "evna") para, também, se referirem ao pai (como Anastácia Iosifovna, isto é, "Anastácia, filha de Iosif"). Por fim, o último sobrenome é uma homenagem ao marido, acrescido de uma grafia, geralmente a letra "a", a determinar-lhe a condição de feminilidade e pertencimento ao parceiro ("Anastácia Iosifovna Iésltsina").
O universo da genealogia é fascinante, nos revelando uma condição universal, desigual, mas, nem por isso, necessariamente errônea. São lindos os sobrenomes em que ocorre, nos legando uma visão global de um fenômeno que, homogeneamente, nos atinge na maior parte de todas as culturas.
Leôncio de Aguiar
Membro Acadêmico ABHL




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