Sobrenomes e pertencimento
- Anapuena Havena
- há 12 horas
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Por Anapuena Havena

Se há algo que nos desperta a sensação de pertencimento, é o nosso nome.
O nome é identidade, faz parte de nós, e quando somos chamados pelo próprio nome, um vínculo se cria imediatamente. É por meio dele que somos reconhecidos socialmente, e a ele atribuímos valor como expressão de quem somos.
O nome é a primeira coisa que carregamos como nossa desde que nascemos. Embora o tenhamos recebido de alguém, apropriamo-nos dele de tal forma que ele passa a integrar nossa identidade.
Acompanhado do nome vem o sobrenome, indicando nossos ramos familiares e nossas origens. Mas nem sempre foi assim.
Antigamente, as pessoas eram chamadas apenas pelo nome. Com o aumento da população, porém, tornou-se necessário diferenciar uma pessoa da outra, surgindo a necessidade de um complemento.
Por exemplo, quando existiam vários Joões em uma comunidade, passou-se a diferenciá-los pelo nome do pai, pelo lugar de origem, pela profissão ou por alguma característica.
Assim, surgiram os sobrenomes patronímicos, ligados ao nome do pai; os toponímicos, relacionados ao lugar de origem; os derivados da profissão exercida; e as alcunhas, baseadas em características que podiam ser físicas ou morais. Há ainda os sobrenomes de origem religiosa, especialmente em países de forte influência católica, como Portugal, Espanha e Itália.
Acredita-se que o uso dos sobrenomes tenha ocorrido inicialmente na China, por volta de 2852 a.C. Também percebemos, nas genealogias presentes na Bíblia, o uso da identificação pelo nome do pai, como “Salomão, filho de Davi” e “Simão, filho de Jonas”, bem como a indicação do lugar de origem, como em "Jesus de Nazaré" e "José de Arimateia".
Nas genealogias bíblicas, percebemos de forma clara os sentidos de identidade, pertencimento, continuidade e herança.
Contudo, o sobrenome como o conhecemos hoje consolidou-se apenas na Idade Média, principalmente pela necessidade de definir herdeiros das terras e organizar juridicamente as linhagens.
Em Portugal, o rei Dom Manuel I ordenou a criação de uma obra que hoje é considerada uma verdadeira obra-prima da iluminura. Trata-se do Livro do Armeiro-Mor, finalizado em 1509 pelo Rei de Armas e artista João do Cró.
A obra, um manuscrito feito à mão, com páginas ricamente ornamentadas, reúne os brasões das principais famílias nobres portuguesas. Durante o terremoto que assolou Lisboa, em 1755, grande parte das obras da Biblioteca Real foi perdida. No entanto, o Livro do Armeiro-Mor foi preservado por não se encontrar no Paço da Ribeira, mas por estar sob a guarda do Armeiro-Mor D. João Álvaro da Costa, escapando assim da destruição. Uma curiosidade é que o livro permaneceu sob a guarda dessa família por mais de dez gerações.
Anos mais tarde, por volta de 1517–1518, Dom Manuel I também ordenou a representação desses brasões no Palácio Nacional de Sintra, dando origem à famosa Sala dos Brasões, onde se encontram o brasão de Dom Manuel I e os 72 brasões das principais famílias nobres de Portugal, pintados no teto do salão.
Muitos membros dessas famílias migraram para o Brasil ao longo do período colonial, disseminando sobrenomes que hoje fazem parte da formação identitária brasileira.
Anapuena Havena Castro S. S. Chaves
Presidente ABHL
Membro Fundadora da Academia Brasileira de História e Literatura




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