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A LEITORA DO TEMPO: Le Petit Journal — O último adeus a Dom Pedro II em Paris (1891)

Por Anapuena Havena




Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 1892.

 

Era final do dia. A casa já se recolhia em seu silêncio, mas minha mente permanecia inquieta.


Na cama, parei um instante para acalmar os meus pensamentos. Meu olhar atravessou a janela de vidro e pousou na lua, que naquela noite parecia pálida e triste.

 

A voz do meu marido me trouxe de volta ao recinto:


— Aconteceu algo, querida? Parece preocupada — perguntou, acomodando-se ao meu lado.

 

— Recebi hoje uma carta do meu pai — respondi, ainda com o olhar distante.

 

— E como passam os seus pais em Portugal?

 

— Estão bem, pelo menos é o que a carta diz. Embora sintam saudades, parecem aclimatados à corte portuguesa.

 

— Se está tudo bem com seus pais, o que a preocupa?

 

Dada a natureza do assunto, sentei-me na cama para explicar:

 

— É que, junto à carta, papai enviou o exemplar do jornal francês Le Petit Journal, do dia 26 de dezembro de 1891.

 

— Mas o que trouxe esse jornal para deixá-la inquieta?


— Preciso que veja com seus próprios olhos — falei, já tirando o jornal da gaveta ao lado.

 

Entreguei o exemplar ao meu marido, que observou a capa atentamente.

 

— O funeral de Dom Pedro II na capa do Le Petit Journal! E perceba que foi um funeral com todas as honras de Estado — observou ele.

 

— Nada mais justo para um homem que foi um exemplo de estadista.

 

— O que diz a notícia? — perguntou, entregando-me o jornal.

 

Procurei a página que trazia a notícia. Na minha meninice, mamãe me obrigou a estudar francês e, na época, senti como um fardo desnecessário a uma criança. Hoje, porém, vejo o quanto esse conhecimento me é útil.

 

Então, comecei a tradução:

 

“Os funerais do Imperador do Brasil

(O carro)

 

" As exéquias do Imperador do Brasil, recentemente destronado por um povo que parece lamentá-lo mais do que quer admitir, acabam de realizar-se com grande solenidade em Paris.

 

O velho imperador morreu num hotel mobiliado nas imediações da Madeleine; e, quando seus fiéis perguntavam onde ir ajoelhar-se para beijar piedosamente, uma última vez, sua mão gelada, respondiam-lhes:


Vejam os números 39 e 41!

 

Eis algo que certamente poderia ter inspirado em Bossuet um grande impulso de eloquência.

 

Ter reinado por longos anos sobre um país grande como dois terços da Europa e terminar os seus dias numa cama banal de quarto de hotel é, sem dúvida, um contraste capaz de inspirar reflexões sérias — e nunca teria sido mais bem aplicada a célebre citação:

 

Et nunc erudimini, intelligite qui judicatis terram.


Instruí-vos agora, compreendei, ó vós, os senhores da terra.

 

Na medida do possível, Paris procurou apagar a impressão sinistra; a França republicana prestou uma homenagem brilhante ao imperador brasileiro.

 

É que se lembrou de que ele foi um homem justo e bom, e de que a causa de sua queda foi talvez o decreto que promulgou sobre a abolição da escravidão.


Além disso, Paris amava Dom Pedro porque Dom Pedro amava Paris.

 

Todas as vezes que pôde, ele foi nosso hóspede: tinha a honra de fazer parte de nossas sociedades eruditas e assistia às suas sessões; recorda-se, enfim, a visita muito cordial que fez a Victor Hugo. Ele felicitou o grande poeta, e sua atitude foi infinitamente mais simples do que a de Carlos V apanhando o pincel de Ticiano.

 

Que descanse em paz! Alegremo-nos por termos podido prestar um testemunho de respeito a esse homem que foi justo e compassivo diante das misérias humanas.”


 

Reler a notícia acentuou meu sentimento de revolta, levando-me a tecer o seguinte comentário:

 

— Perceba, meu marido, que enquanto o imperador recebeu honras no exterior, de um país republicano, inclusive; nenhuma homenagem oficial lhe foi prestada em sua própria terra. Isso é vergonhoso!

 

— E o fato de Floriano Peixoto não ter enviado nenhuma autoridade para representar o Brasil no funeral, em Paris, foi uma vergonha perante o mundo. Lá estavam representantes de diversos países; até de nações mais distantes, como Japão, China e Turquia, mas o lugar que cabia ao Brasil estava vazio.

 

— Não consigo entender! — elevei o tom em indignação.

 

— Ouvi dizer que essa postura do Floriano gerou consternação até mesmo entre alguns republicanos.

 

— Ah, meu querido! Não me conformo com tamanha injustiça. Querem apagar a figura do imperador a todo custo! Sabemos o quanto Dom Pedro amou esse país! Ainda penso em seu sofrimento quando foi forçado a embarcar naquele navio, quando teve de deixar o Brasil… E mesmo diante de todo o sofrimento, vendo sua história usurpada, ele não permitiu que nenhuma reação ao golpe fosse feita, para poupar o seu povo.

 

— Visconde de Tamandaré até tentou convencê-lo…

 

Calei-me por um instante e tornei a observar a lua. Questionava-me se o imperador tomara, de fato, a melhor decisão. É nobre, sim, desejar evitar qualquer dor aos seus súditos; contudo, não necessariamente haveria derramamento de sangue. Ele tinha o apoio da Marinha e, principalmente, da população. Talvez, se tivesse ousado resistir, não estaríamos mergulhados nessa instabilidade.

 

— Dom Pedro II amou tanto o Brasil… — falei em tom de lamentação, voltando-me ao meu marido. — Sabe qual foi o último pedido dele?

 

— Que fosse colocada terra brasileira em seu caixão, caso morresse longe de sua pátria.

 

— Exatamente, querido. Ele desejava repousar em sua própria terra, e como sabia ser impossível, pediu que fosse colocada uma almofada com terra brasileira em seu caixão. Almofada que foi colocada sob sua cabeça. E se alguém é incapaz de se comover com essa mais pura manifestação de amor por sua pátria, é porque não tem coração. Esse governo sequer teve a dignidade de reconhecer a grandeza desse homem, e está fazendo tudo para apagar a sua memória! Mas essa terra é tão dele quanto de todos aqui, afinal ele era um brasileiro!

 

— Calma, meu amor. Não precisa se exaltar dessa maneira. Assim acordará as crianças. Vão pensar que não está passando bem.

 

— E não estou bem mesmo, meu marido! Ler esse jornal despertou o meu mais profundo sentimento de indignação. Ah, mas a História há de prezar pela verdade! Um dia, todos saberão a injustiça que esse homem passou. E esse jornal aqui servirá como prova! Vou guardá-lo para isso — falei resoluta.

 

— Então, agora tornou-se arquivista? — brincou ele, dando um meio sorriso.

 

— Se assim deseja me considerar, está certo ao fazê-lo. Porém, antes de qualquer coisa, sou uma leitora do tempo — respondi convicta.

 

Talvez com a intenção de mudar o rumo da conversa e acalmar-me os ânimos, meu marido pegou o jornal das minhas mãos. Folheou-o atentamente, até parar na página que noticiava o funeral.

 

— Os jornais franceses já imprimem em cores, isso é fantástico! Parece um retrato. Veja — mostrou-me a ilustração. — Essa imagem não parece ter relação com o imperador... Aqui diz “Noël”, deve ser algo referente ao Natal.

 

— Deixe-me ler — falei, inclinando minha cabeça para o jornal nas mãos dele, esforçando-me para enxergar as letras miúdas. 

 

E, mais uma vez, usei meu francês:



“Os sapatos de Natal

 (Quadro do sr. Miéry)


" Eis o Natal! Parece-nos um bom momento para publicar a deliciosa fantasia do sr. Miéry.


A criança está dormindo — ao menos é o que se pensa; e os pais, bem de mansinho, vêm encher os sapatos com os presentes que se supõe que o Menino Jesus tenha trazido pela chaminé.


Mas o traquinas está de olhos bem abertos; ele vê, entende tudo: então o Papai Noel não existe!


Pobre querubim: é a tua primeira ilusão que se desfaz; as outras te abandonarão depois. Tenho pena de ti — e tu também terás pena de ti mesmo — quando, desencantado e triste, compreenderes que a ilusão talvez seja o que há de melhor na vida.”



— Um pequeno texto sobre desilusão — comentei, fechando o jornal com um suspiro e guardando-o novamente na gaveta. — O editor do jornal fez bem em colocar esse texto junto à notícia do funeral de Dom Pedro II. Parece conhecer o sentimento do povo brasileiro — concluí, sem esconder a desilusão que também pesava em meu peito.


E como, de acordo com meu marido, tornei-me uma arquivista, deixo aqui o exemplar original do jornal para que dele tome leitura e sinta a textura da história em suas mãos.


 





Referências Bibliográficas


Le Petit Journal: Supplément illustré (Paris), n.º 57, 26 de dezembro de 1891. 


Autoria: Anapuena Havena 

Escritora, Historiadora e Pesquisadora

Presidente da Academia Brasileira de História e Literatura (ABHL)


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