A Espetacular História das Invasões Neerlandesas no Nordeste do Hoje Brasil
- Anapuena Havena
- 18 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de dez. de 2025
Por Leôncio de Aguiar

O Brasil e suas batalhas. Um dos países que esteve sob o domínio de vários impérios durante a História Moderna, até se constituir, fisicamente, num dos mais vastos territórios do planeta, que, com orgulho, possuímos. E as batalhas de que hoje falo são as invasões neerlandesas, ocorridas durante nosso domínio pela monarquia hispano-portuguesa.
Em 1580 houve a fusão política de Portugal e Espanha, conhecida como União Ibérica, tendo como mais próspera colônia o Estado do Brasil, herdado de Portugal independente. E isso não passava despercebido dos neerlandeses, que, em busca de novas oportunidades comerciais (especialmente a tentadora tomada dos engenhos de cana de açúcar situados no Nordeste) possibilitadoras, também, da expansão da doutrina protestante herdada de Lutero, tomaram Salvador de assalto em 1624, cidade que já era a capital do Estado do Brasil (entidade colonial separada do Estado do Maranhão desde 1621, conforme outro artigo por aqui enviado, e intitulado "De 1500 a 1828: A História da Evolução Territorial do Brasil").
A inicial captura de Salvador foi, relativamente, fácil. Os neerlandeses comemoraram dias e noites seguidas seu triunfo, incentivados a planejar futuros movimentos, na crença de que a União Ibérica não iria reagir. Chegando a notícia à Península Latina, a monarquia hispano-portuguesa logo não os fez esperar. Como num xadrez, rapidamente armou suas peças, enviando tropas às pressas, mas organizadamente, a fim de reparar a infâmia e recuperar o controle daquela capital. Portugueses e espanhóis, após séculos de rivalidade, agora se encontravam sob a mesma coroa, e juntos lutariam por São Salvador da Baía de Todos os Santos.
Mas o preço seria alto. No século XVII, organizar expedições militares às pressas ao outro lado do vasto Oceano Atlântico significava, quase sempre, lidar com doenças como o escorbuto, péssimas condições sanitárias, mínimo espaço aos marinheiros combatentes, e, somando-se todo este quadro, uma possibilidade de rebeliões. Houve tudo o que podemos imaginar, mas não a desistência. Os hispano-portugueses, não obstante as dificuldades decorrentes do deslocamento, chegaram a Salvador e iniciaram a batalha de reconquista.
Se podemos dizer que a conquista de Salvador pelos neerlandeses não muito penosa foi, os mesmos, também, não resistiriam ao poder das esquadras hispano-portuguesas. A cidade fora fechada pelos latinos, cujo cerco não durou mais que algumas semanas. No fim, dezenas de prisioneiros de guerra neerlandeses e uma das mais espetaculares vitórias militares da História Moderna, por parte da União Ibérica, que se desfez em 1640 por conta da Guerra de Restauração Portuguesa, quando, no Estado do Brasil, já se havia iniciado uma segunda invasão flamenga, com os mesmos objetivos de expropriação de engenhos, em Salvador mais ao norte (Pernambuco, Paraíba e Rio Grande de Norte, tendo como um de seus maiores símbolos o rebatismo de várias cidades, como a hoje João Pessoa na condição de “Frederichstadt”).
Naquele segundo período, houve um grande progresso nos territórios ocupados, especialmente por parte do governador neerlandês Maurício de Nassau (conhecido como o “governador do Brasil Holandês”, cujo mandato detinha por ser um funcionário da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, um movimento que, como outros europeus, se ocupava do militarismo que, em princípio, cabia aos países-sede). A liberdade de religião entrara em vigor, e, é claro, também a doutrina protestante, praticada pelos invasores. A arte floresceu, bem como a economia, que, antes, também fez com que o Estado do Brasil fusionado fosse a mais atraente dentre as colônias de Portugal.
Mas nada apagava o fato de se tratar de uma invasão, e Portugal, solitário na sua missão de, mais uma vez, expulsar os neerlandeses, o fez apenas em 1654. Isso prova dois fatos, ainda que antagônicos: durante a União Ibérica os portugueses integravam, de fato, um exército mais forte, mas, ainda assim, a nova expulsão dos flamengos evidenciou que nem a separação da Espanha fora capaz de retirar-lhes o espírito guerreiro e de conquistas.
Por Leôncio de Aguiar, membro da Academia Brasileira de História e Literatura – ABHL.




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